Nem todos os poemas têm nome
Cada vez que chove no meu chão há uma canção que não chega a ser gente.
Sabiam que todas as gotas morrem antes de chegar à terra? Dão a vida para encher os rios, os oceanos, os lagos artificiais e as piscinas naturais, as poças e as canecas esquecidas nos quintais, os vasos, os tanques de rega e os olhos dos nossos pais quando vamos para a guerra.
Uma dança suicida, mata a sede distraída dos pobres que nascem desidratados de amor .
As nuvens já não têm memória para tanta mágoa.
Vi um bando de sereias numa rocha de cimento, aflitas para cantar.
Atirei-lhes uma mancheia de rimas do dia anterior, que sobraram de um poema mal amado.
Ando sempre com migalhas de solidão nos bolsos e lenços de papel com dilemas de mentol.
Vivo de esmolas secas pelo sol e sonho com serenatas gordas em dias de nevoeiro animal.
Amparo o tormento que alaga a minha dor sem provas de que não me vou afogar .
Abro todas as torneiras da minha Atlântida canalizada e deixo-me verter como uma criança breve.
Sinto a demora pesada do meu passado enquanto atravesso um deserto de vagas intenções. Prometo oásis que não posso cumprir, avanço por um engano manso, às vezes morro outras vezes só descanso.
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