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Showing posts from December, 2025

Prosa de vinhos

  Já não bebo há 1 semana. Foda-se, vou abrir a garrafa de vinho. “Tinto na língua, menina!” Não tinha nem 14 º e lá fora já chovia. Pus a língua a jeito só a ver o que caía. Servi o Temporal em copo alto de cristal. Severo e sincero, monocasta com pedigree , lá na tasca nunca vi , esculpido em socalcos , afiado nas escarpas do Douro. (Há xisto lindo! ) Não durou muito até acabar no fim,   de boca, escura, região de marcada falta de elegância, e visível afinidade taberneira, longe do prumo erudito de uma distinta prosa de vinhos. De uma distinta prosa de vinhos. Ébria obra escrita a dobrar, o que lhe sobra em Borba falta em sobriedade . De um lado romance de autor assinado com pena e aparo caro de tinto permanente, do outro, soluços de pão bebado em vinha dalhos   fiel ao seu papel de efêmera condição, da de beber a solidão,   texto pingado e sopa de letras de cavalo cansado . declamou em vez de escrever e entronou, porque não sabe beber . Prosas de vinho Daquelas. q...

Poema com penas

O vento trouxe nas asas as gargalhadas das gaivotas. As andorinhas adoraram. As árvores aplaudiram. E os melros… bem, os melros… Eu não entendo o que os melros dizem.   Pombo final parágrafo. E só não referi os pardais porque não dão bons finais.
  Um dia vou   morrer e finalmente saber de onde vêm os sonhos.  

Lembra-dura

Escrevo na minha mão esquerda aquilo que não posso esquecer. E nunca me lembro que a mão direita ainda não sabe ler. Confio as obrigações da vida ao diálogo mudo de duas mãos vazias. E regresso a casa com uma lista cheia de falhas para chorar. Tanta coisa por fazer que me esqueci de esquecer. Se ao menos a tristeza fosse uma tarefa como as outras, talvez me esquecesse de chorar. Assim, até ficava feliz por não me lembrar.

Circo de férias

Freelancer não é   free , é ser feliz em chroma key. Aaaaaah a mentira de ser livre… É assim que a gente vive. Quando tudo é imposto, ninguém   trabalha por gosto. O salário mal CV. Ter contrato é demodé. Recibos verdes são como casas sem paredes... A firma confirma que não   ganhas, só perdes. A máquina é sádica -   não para, só anda. A justiça é estrábica -   não vê, só manda. Quem tem coração não ganha tostão. Sobra a mão de obra que, entretanto, perdeu a mão.   Somos todos   carne para canhão! Telhados de vidro - Governo partido -   Prosperar é proibido. Verga a mola - gasta a sola - diz que sim ao homem da cartola. São os ossos do ofício , olha, lá se faz o sacrifício. ‘Pague a renda e não se ofenda!’   Reza a lenda que o melhor é   esquecer aquele casaco de fazenda. Ficas em mangas de camisa… o que   está mal, já   não tem emenda . Aqui para nós que ninguém nos ouve, não é por teres frio que tens de perder o pio.   Q...

Quatro estações

#1 Inverno Agora que está mais frio ligo o aquecedor, que faz tanto barulho como um exaustor, e decido escrever com os pés, talvez por não conseguir ouvir o pensamento. O cérebro está sempre ameno por isso não sente o balanço das estações, é no inverno que as outras partes do corpo exigem   falar. Mas será   que alguém quer saber o que pensam os pés ou o que sonham as mãos ou o que o rabo tem a dizer? Haverá valor literário nas palavras de um nariz, num diálogo de joelhos ou na prosa de um cotovelo? Não sei. Mas sei que o frio do inverno é uma musa inspiradora para a poesia das extremidades do corpo. Afinal, são elas as que mais sentem a solidão de estar longe do coração. Como penínsulas ou, pior, arquipélagos esquecidos onde o Sol não chega e o sangue se esquece de irrigar. São aquele amigo distante que ninguém convida para jantar. São elas, as extremidades, quem mais treme e quem mais teme. Enquanto o torso se regala na sua lareira de calor auto-suficiente há falanges, falan...