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A diva da tentativa

É raro, é humano,   tentar até ao tutano. Não é dano nem profano   praticar o engano, e saber celebrar a glória de falhar. Ouro, jóias e jasmim   para quem sabe viver assim. A falha é o pão de quem trabalha. Se tens fome de viver, falha até te apetecer. Falha que é falha não atrapalha.   Falha que é falha não é gralha.   Falha quem falha e quando calha, lá se ganha.

Linhas cruzadas

Visto um corpo justo de consciência apertada e pés ao léu. Está na cara que a cabeça que coroa esta carcaça já andou de mão em mão, noutras vidas antigas de mortes assistidas e consortes polidas. Bibliotecas acetecas de sabedoria sistémica ligada por fios ao nascer do Sol. Gostava muito de falar com os deuses, mas não sei o indicativo das estrelas. E o telex é um universo complex. ‘Estou sim?’ Pergunta a dúvida quando atende uma chamada de atenção. A verdade é que ‘Quem fala?… ‘Nem sempre tem razão.  

Sem rede

A verdade instável é o melhor trapézio para a solidão.   A solidão é o melhor palco para a descoberta. E a descoberta, senhores e senhoras, meninos e meninas, é o verdadeiro espectáculo da existência.   Temos leões, contorcionistas, palhaços e malabaristas. Temos medos amestrados, faquires, bailarinos e ilusionistas. Somos nómadas da dor e choramos em equilíbrio na corda bamba da vida. Venham, venham ver a arte de andar à deriva! Dentro desta tenda não há céu que nos acuda e o chão está mais perto do que parece . O perigo chama, e a fome inflama. Enquanto os cavalos não pararem de correr, os aplausos vão dar-nos de comer.  

Nem todos os poemas têm nome

  Cada vez que chove no meu chão há uma canção que não chega a ser gente. Sabiam que todas as gotas morrem antes de chegar à terra? Dão a vida para encher os rios, os oceanos, os lagos artificiais e as piscinas naturais, as poças e as canecas esquecidas nos quintais, os vasos, os tanques de rega e os olhos dos nossos pais quando vamos para a guerra. Uma dança suicida, mata a sede distraída dos pobres que nascem desidratados de amor .   As nuvens já não têm memória para tanta mágoa. Vi um bando de sereias numa rocha de cimento, aflitas para cantar.   Atirei-lhes uma mancheia de rimas do dia anterior, que sobraram de um poema mal amado.   Ando sempre com migalhas de solidão nos bolsos e lenços de papel com dilemas de mentol.   Vivo de esmolas secas pelo sol e sonho com serenatas gordas em dias de nevoeiro animal.   Amparo o tormento que alaga a minha dor sem provas de que não me vou afogar .   Abro todas as torneiras da minha Atlântida canalizada e deixo...

Nu vais, nu vens

Na fábrica do céu há nuvens que trabalham por turnos.   De dia enfeitam o seu azul, claro, e de noite assombram o meu nocturno, enquanto durmo. Não sei se é algodão ou se é fumo, a matéria que dá forma às nuvens, não sei se é mole ou duro… (e será puro?) …o véu volátil que sopra o sonho daquele   novelo absurdo.   Não sei se é ficção ou aflição , o que sustenta a beleza desta leve ilusão .   Só sei que não chego lá com a mão .   A visão de um afago impossível diz que não.   E se não posso agarrar , não há nuvem que me faça acreditar . Entretanto, a Lua vai nua e ninguém lhe pede para trabalhar.