Quatro estações
#1 Inverno
Agora que está mais frio ligo o aquecedor, que faz tanto barulho como um exaustor, e decido escrever com os pés, talvez por não conseguir ouvir o pensamento.
O cérebro está sempre ameno por isso não sente o balanço das estações, é no inverno que as outras partes do corpo exigem falar. Mas será que alguém quer saber o que pensam os pés ou o que sonham as mãos ou o que o rabo tem a dizer?
Haverá valor literário nas palavras de um nariz, num diálogo de joelhos ou na prosa de um cotovelo? Não sei. Mas sei que o frio do inverno é uma musa inspiradora para a poesia das extremidades do corpo. Afinal, são elas as que mais sentem a solidão de estar longe do coração. Como penínsulas ou, pior, arquipélagos esquecidos onde o Sol não chega e o sangue se esquece de irrigar. São aquele amigo distante que ninguém convida para jantar. São elas, as extremidades, quem mais treme e quem mais teme. Enquanto o torso se regala na sua lareira de calor auto-suficiente há falanges, falanginhas e falangetas que sonham com o verão.
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